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20/12/2003 16:24
Aqui vão algumas considerações sobre o filme "O Gabiente do Dr. Caligari":


O filme “O Gabinete do Dr. Caligari” pode ser considerado a obra-prima do Expressionismo alemão. Tanto pelo seu cenário, altamente estilizado, quanto pela interpretação de seus atores principais, Conrad Veidt e Werner Krauss, ou pela abordagem de um tema extremamente subjetivo, os mistérios da mente humana (representados pelo sonambulismo).
“O Gabinete do Dr. Caligari” conta a história de um sonâmbulo, Cesare, e seu mestre. Dr. Caligari. Obedecendo inconscientemente às ordens de seu senhor, Cesare comete uma série de assassinatos. Até que, ao ser ordenado a matar uma moça, o sonâmbulo não consegue fazê-lo, e acaba seqüestrando-a. Entretanto, no esforço da fuga, Cesare extenua-se e morre. Francis, pretendente da moça seqüestrada e amigo de uma das vítimas de Cesare, desmascara o Dr. Caligari, que era na verdade o diretor de um hospital psiquiátrico. Descoberto, o diretor é trancafiado para sempre numa das celas do hospício que ele mesmo dirigiu por tanto tempo.
O cenário é uma das coisas mais marcantes deste filme. Ele foi executado em tela pintada, segundo uma estética expressionista. Assim, a cidade ao longe se contorce de maneira grotesca; os telhados são angulares, as janelas assumem formas pontiagudas, as ruas ora se assemelham às escuras, sujas e assustadoras vilas medievais, ora parecem verdadeiros labirintos, com paredes descomunais que, de certa forma, oprimem e atordoam os personagens. A prisão é um dos cenários mais impressionantes. Somente um minúsculo buraco serve de “janela” entre o preso e o mundo externo; entretanto, há uma luz misteriosa que reflete em várias pontas sobre seu interior, como uma estrela. Até mesmo o letreiro é estilizado.
Outro fato que merece destaque é a interpretação de seus atores principais, Conrad Veidt (Cesare) e Werner Krauss (Dr. Caligari). Todos os outros atores assumem uma atuação “naturalista”. Entretanto, pode-se dizer que esses dois possuem uma performance verdadeiramente “expressionista”; seja pela emoção que seus rostos transmitem ou pelo próprio gestual, que varia entre o exagero e o que parece ser um balé meticulosamente calculado (a morte de Césare é um ótimo exemplo da segunda situação).
Por fim, falemos sobre o tema de “Dr. Caligari”. O tema do subconsciente despertava muito interesse na época graças às teorias de Freud. Além disso, assuntos como o subconsciente, o misticismo e a magia sempre foram de interesse dos expressionistas. O filme faz uma crítica feroz às autoridades. Durante toda a história, elas são mostradas em posições superiores, como cadeiras anormalmente altas. É necessário subir-se escadas tanto para chegas à delegacia quanto ao escritório do diretor do hospício. E é justamente a autoridade médica que deveria zelar pela sanidade da sociedade que se mostra o maior de todos os loucos. Por sua inconsciência, Cesare acaba sendo inocentando por nós; assim sendo, é Caligari que comete as maiores atrocidades.
Onde podemos identificar o “grito expressionista” dentro desse filme? Segundo minha interpretação pessoal (explicarei depois porque devo denominá-la desta maneira), acho que Cesare seria a representação inconsciente desse grito. Ou, explicando melhor, o sonâmbulo seria a materialização do grito do Dr. Caligari, o instrumento do qual ele se utiliza para libertar seus demônios interiores. Note-se que Dr. Caligari não se torna “mau” no momento em que ele assume seu grito; o filme deixa claro que ele já possuía intenções maléficas antes mesmo de encontrar Cesare. O diretor do hospício representa a autoridade que quer reprimir e controlar o “mundo interior”. Essa sua sede de poder e controle faz com que ele despreze não somente os valores morais, mas a própria vida humana. Tem-se a impressão de que o que leva Caligari a transformar Cesare em um assassino não é o prazer de matar, mas a sensação de poder que isto lhe traz, pois mostra que ele é capaz de obrigar o sonâmbulo até a cometer os atos mais cruéis. Assim sendo, a autoridade tenta reprimir e controlar o grito; mas o grito é incontrolável, e o conflito entre ambos só faz com que a inevitável liberação do grito traga dor e sofrimento. Esse grito destrói a ambos; Cesare morre enquanto o médico é aprisionado em sua própria loucura. Mais uma vez, vemos um personagem que não consegue resistir ao chamado de seu lado negro e acaba sendo destroçado por ele.
Infelizmente, não pude participar da discussão que ocorreu após o filme. Assim sendo, baseei esse post na discussão prévia, no texto entregue pelo professor (“A Tela Demoníaca”- de Lotte H. Eisner) e em algumas observações próprias. Portanto, ficaria contente se algum membro do grupo de filosofia que tenha participado da discussão pudesse completar esse post comentando-o.
Alguns momentos do filme que me produziram êxtases estéticos: a cena em que Cesare prevê o futuro de Alan; o assassinato do mesmo; a morte de Cesare e, por último, o momento em que Francis descobre que o diretor do hospício é o Dr. Caligari.



enviada por fastasma na neblina






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